sábado, 18 de março de 2017

Eu não sou SUA mulher - As amarras da Família Tradicional Brasileira

AVISO IMPORTANTE: Caríssimos, vocês estão todos convidados para o casamento de Paulo de Castro e Ana Lima na Catedral do Centro da Cidade. Levem seus presentes aos noivos! Ana agora se chamará Ana de Castro, para atestar que é propriedade de seu digníssimo marido e deve passar o nome do ALFA para seus sucessores - que aliás não devem demorar muito para vir! Além disso, ela se casará de branco, branco meus senhores! Estampando a pureza e que é uma mocinha de modos: pura, casta e obediente. Tudo branco, tudo limpo sem sujeiras, traições ou marcas de uma personalidade forte e, como brinde, estará sempre com um sorriso na cara! 


Me pergunto quantas mulheres como Ana casam-se nestas condições hoje. Me pergunto quantas casam-se nesses moldes contra a vontade e quantas sonham com isso. O que significa perder um nome seu para colocar o do marido? Por que não é aceito o contrário, por exemplo, o marido, por escolha de ambos, adotar o nome da esposa? O que significa crescer sonhando com o vestido branco e o altar, e deparar-se com os olhos esbugalhados diante do noivo, com um espartilho opressor, hipócrita e moralista?

Era Março de 2017, quando o não eleito presidente Michel Temer saúda as mulheres no 8 de Março virando piada internacional. Ele, em comemoração a um dia que simboliza a luta pela igualdade de gênero, elogia as habilidades domésticas das fêmeas, sua importância unilateral na criação dos filhos, e a capacidade de ´´indicar os desajustes de preços em supermercados e flutuações econômicas no orçamento doméstico``.  

Por causa disto, queria ter escrito aqui um dia após este evento que me deu o que pensar por dias. Acho que fiquei me revirando entre opressões dissimuladas, escancaradas e agudas de uma sociedade ainda de homens, acumulando aberrações, insultos de meus governantes, de meus companheiros, de meus amores. Fiquei paralisada diante dos moldes da Familia Tradicional Brasileira que ainda são uma sombra nos afetos e na liberdade, que ainda tentam socar goela abaixo de nosso imaginário um ideal de estabilidade.  

Ana realizou o sonho de casar-se no altar, vestiu-se de branco, mas recusou o nome do marido: ela tinha orgulho do próprio nome e de sua história. Separou-se depois que a filha nasceu. Sua filha nunca conheceu as frases te amo pai, boa noite pai, obrigada pai. Nunca teve pai. Ele não achou fundamental acompanha-la nessa vida. Ele não cumpriu os votos de fidelidade, companheirismo e amor que jurou diante de Deus no altar.

A filah de Ana não teve pai, mas teve mãe, que fez tudo que meu pai deveria ter feito e, como a maioria dos homens deste pais e do mundo, acham que filho nascido é responsabilidade mais da mulher que dele, aliás, que a filha mulher é um pouco menos importante.

A filha de Ana, Laura, cresceu se perguntando se a sensação de incompletude que a tomava desde cedo era pela falta do falo entre as pernas. Perguntou-se, na ingenuidade doce e infantil, que talvez se fosse um menininho forte seu pai a tivesse amado. Ou ainda, se Ana tivesse se subjugado às forças controladoras de papai, ela teria prolongado seu casamento; Se ela tivesse se mantido cega aos fatos, talvez o casamento estivesse de pé sustentado pela mentira e hipocrisia de tantos outros. Talvez ela fosse hoje uma mulher casada com os nervos arrebentados, sua fúria contida como cavalo selvagem amarrado pela boca, salivando raiva, andando torta com viseiras que a permitem ver somente o que mandam ver. 

Ana não foi capaz. Ela é forte de mais e amante de mais das verdades e das corridas livres. Laura cresceu ouvindo que não deveria deixar nenhum homem dizer o seu valor, cresceu ouvindo que o amor existe e ele vale a pena.  Eu mesma cresci treinada para as corridas livres, com sonhos ousados, ideais e, mesmo depois de tudo, que família era importante e era possível. Cresci ouvindo histórias de amor, vendo os olhos de meus avós brilharem depois de 60 anos de casado um pelo outro. Eu cresci na contradição e morei no desequilíbrio. 

O que é família, afinal? Qual a importância e os limites da tradição? Quando penso em casamento ou moldes familiares tradicionais penso em uma construção histórica social e política. Penso em uma estrutura burguesa que define padrões, regras e limites. Vejo uma tradição secular que se reproduz e me agrada muito quando ela se reproduz reinventada, porque a tradição não pode ser morta ou emburrecida, ela deve dialogar com o presente e se transformar em outra coisa: eu acredito na tradição viva. 

No Brasil, segundo o IBGE, temos 60 mil famílias homoafetivas, casais que construíram um núcleo familiar alterando a heteronormatividade: são dois pais, duas mães, ou apenas dois amantes com seus amigos. Mais de 30% de famílias são compostas apenas pela mãe e outros membros familiares.  Em 2011, o ministro Ayres Britto declarou que ´´A constituição Federal não faz a menor diferenciação entre a família formalmente constituída e aquele existente aos rés de fatos. Como também não distingue entre a família que se forma por sujeitos heteroafetivos e a que se constitui por pessoas de inclinação homoafetiva``.

Mas a nossa querida Constituição Federal não conseguiu apaziguar os ânimos sociais, e as famílias fora do ´´ padrão`` sofrem com isso interna e externamente, porque a sombra da tradição familiar burguesa nos assola quando põe em cheque suas próprias bases: monogamia, fidelidade, papel da mulher, papel do homem, filhos e divórcio. 

O casamento e a família tradicional brasileira pode ser um amarra e com certeza é uma contradição. Digo que ela pode ser opressora caso passe por cima da liberdade de escolha e do esclarecimento diante da norma. Não critico a mulher que quer casar-se de branco, ou casais que sonham com o altar, ou cerimônia religiosa ou cultural, apenas acho perigoso quando isso é escopo para manipulação e subjugação, principalmente quando se trata da mulher e as tentativas, mesmo que inconscientes, de mante-la sob controle. A família é contraditória porque ela tem pequenas normas, mesmo que reinventadas, que se chocam com as humanidades - por essência contraditórias: o amor, aí está a base fundamental e a mais complexa de todas, que nos joga de um lado a outro tirando o sono dos poetas e perturbando os racionais. No fundo o amor ri na cara da monogamia, da poligamia, do casamento, dos affairs, das leis e da política. O amor ri da cara de tudo isso e ainda se impõe nos obrigando a enlouquecer ou a reinventar um mundo possível. 

Eu acredito na reinvenção. 

Eu sou mulher, tenho 25 anos e sou atriz. Não tenho uma profissão formal aos olhos da sociedade e nem uma personalidade amena para a Tradicional Família Brasileira. Ainda sim, eu acredito no amor e na família que é o que tiver que ser no limite das honestidades e dos afetos sinceros. Não quero ser a mulher de ninguém, como propriedade, não quero que ninguém ponha seu nome em cima do meu, ou me dê funções na casa, ou me diga o que que posso ou não fazer. Eu acredito na família calcada em liberdade e esclarecimento, em escolhas, em amor pelas contradições de seres humanos vivendo juntos. 

Não aceito nenhuma mulher reduzida à sombra do marido, não aceito minha expressão, minha alma e minhas ideias reduzidas à meras insignificâncias como ´´ flutuações do orçamento doméstico``. Não precisa falar floreado e bonito para dar mais importância a uma ´´função feminina``, caro presidente. Alias, eu amo a boa poesia assim como amo o bom palavrão: vá à merda. 
Estou farta das insignificâncias que nos colocam, ou amarras. Estou farta da insignificância que reduzem o meu choro e o choro de tantas. Vou colocar nossas insignificâncias no meio da rua com meu verbo precoce que não servirá a nada que não seja por vontade própria. 

Não sou mulher de ninguém. Sou mulher de mim mesma. 

Meus seios estão a mostra.
E não é para agradá-los. 
Meu corpo está à mostra.
E é porque sou livre. 
Minhas ideias, minha dor e meu amor estão aqui e lá.
E assim ficarão
Porque eu escolhi.

Manas...

O tempo é inteiramente nosso.