terça-feira, 31 de janeiro de 2017

I'm a girl and I have a cock! - Visibilidade Trans sem Violência

SENHORAS, SENHORES... Ao sentarem, por favor, separem-se: mulheres para a direita, homens à esquerda e os indecisos pairem sobre nossas cabeças, mas sem cair por favor! Pairem com graça sem desgraças ou incômodos. 


Faz tempo que me pergunto sobre os limites da carne, dos ossos. Me pergunto isso com certa agonia, como se o limite da pele fosse um limite tal a ponto de nos oprimir, como se, na verdade, eu quisesse transcender meu corpo, ir além dos limites da pele e rasgar-me inteira... Virar ar, vento, energia cinética.

Meu nome é ... 
Meu nome,
meu
nome
é...

Dizem que quando se nomeia algo, dá-se alma. A alma vem com o conjunto ordenado de letras, como uma magia, um encanto. Chamaram-na de Leonardo, quando rompeu o ventre de sua mãe. Rompeu gritando rasgado como animal abatido, relutando como se não quisesse entrar para este mundo. Nasceu um bebê bem dotado, segundo o médico que, ironicamente, disse a todos da sala: é homem e não há como ter dúvidas! Risos contentes, satisfeitos.  Sua mãe chamou assim, Leonardo, porque significa pessoa valente, como um leão, corajoso, viril.

Mas existe no mundo um negócio curioso - a contragosto dos céticos controladores - um tipo de energia elementar que faz crescer todas as flores, movimentar todos os astros. A mesma energia que nos concede desejo, passado, presente e futuro. Essa energia chamaram alma ou espirito, ou força vital, ou personalidade, ou muitos outros nomes. Curioso esse negócio de nomear as coisas, principalmente quando uma coisa tem muitos nomes. A árvore, caso se chamasse pliti, ainda seria o que é com outra designação? Ainda daria os mesmos frutos, com a mesma cor, tamanho, exuberância se tivesse outro agrupamento de letras que não a-r-v-o-r-e? Se sim, podemos inferir que o nome não modifica, concretamente, a coisa. Mas a coisa se modifica quando o nome significa algo para nós, ou seja, o nome se relaciona com nosso imaginário, com nossa história e nossa definição das coisas a partir dele. O nome importa para nós e nosso mundinho, não para a essência da coisa como é.

O mesmo acontece com Leonardo, que nunca se importou com as definições sobre si mesmo, no que diz respeito a sua natureza: por mais que os grandes ´´ elementos`` entre suas pernas o impusessem muitas classificações, eles negavam sua natureza íntima, mais que isso, feriam. Essa virilidade, esse gênero do macho, esses impulsos viris dos Leonardos não lhe cabiam. Tudo isso se fazia estranho, desconfortável, deslocado.  Ele era ela, nasceu ela, sempre foi ela. De dentro, através da sua retina, dentro do mundo existente atras das paredes de suas células ele sentia-se uma menina, e depois uma mulher. Ela debatia-se, como átomos em ebulição agitados e desordenados, dentro de um corpo agressivo e opressor que a impedia de ser. É um estado constante de sufocamento, como se estivesse submersa sob a própria pele, a sombra de um nome e de um gênero oposto ao seu.

 ´´Como é difícil olhar-se no espelho`` - escrevera ela em seu diário. Gostava de chamar-se Maria porque significava... significava... Um som bom a seus ouvidos. Ela era Maria para si e os amigos íntimos. Maria que amava vestir vermelho, odiava pintar as unhas, gostava dos cabelos compridos e levemente anelados, gostava de Bon Jovi e de tocar piano, odiava seus músculos, sua estrutura óssea forte e robusta, machucava-lhe os pelos do rosto que rasgavam sua pele e, mais ainda, a alcunha que virou ser chamada de Leonardo, o enfrentamento dos pais, as pílulas anti-psicóticas que tomara de médicos - afinal é um ´´ distúrbio tratável esse de querer ser mulher não é doutor?``.

Ela não queria, era. Ela era uma mulher em um corpo de homem. E como saber isso? E isso pode? O que significa, afinal, a palavra mulher, ou o gênero mulher?  É preciso ter um corpo como tal? Se a mulher não precisa agir de acordo com imposições sociais, se ela é soberana de si mesma mesmo quando foi subjugada a progenitora do lar, ou a salários mais baixos, ou a serva de seus esposos... a mulher não tem lutado para sua igualdade, sua liberdade dessa cultura machista, que não a obriga a nada,  mas a liberta e lhe dá escolhas? E seria possível uma mulher, por alguma dança inexata de cromossomos, átomos e reações, estar presa a um corpo masculino?

Maria demorou 12 anos para conseguir fazer sua cirurgia total de mudança de sexo, apanhou 12 vezes na escola e duas na rua. Agora, sentindo-se no corpo ao qual pertence, ela poderia ser mais completa, mas nunca totalmente. E não pela sombra de não ter nascido mulher, porque por mais que sejam muitos os nomes que a classificam: mulher trans, trans, pessoa com distúrbio de identidade de gênero, etc etc e tal, ela era quem sempre foi: mulher. Ela nasceu e morreu assim.

Ontem, 30 de Janeiro de 2017, Maria teve o crânio estourado as 3:45 da manhã por um homem de 56 anos, alcoolizado e raivoso, militante em defesa da ´´ natureza`` e disposto a acabar com aberrações como ela. Maria é mais uma. Há homens transgêneros. Há, também, os que são gênero não binário, nem homem, nem mulher. Mais de 2% da população mundial não se identifica com o gênero com qual nasceu,sendo que 46% das mortes é causada por tiro, 24,2% por punhalada, 12,8% por paulada, 4,4% por estrangulamento, 2,8% por apedrejamento, 2% por desmembramento, 1.9% por asfixia, 1,5% por tortura, 1,4% por queimadura, 1,5% por atropelamento.

Números, porcentagens.

Quantos mais terão de morrer? Quantas definições vão nos colocar, que nos prenderão ao corpo com qual nascemos? Com quantos nomes teremos que andar pendurados em nossos pescoços que nos ofendem, que agradam ao imaginário social ideal, machista, misógino, homofóbico, transfóbico e racista? As palavras homem e mulher  não só não dão mais conta de definir nosso espírito, como também foram desmembradas em mais de 33 tipos de gênero. É bonito como vamos reinventando nossas significações, criando nosso próprio verbo que abrace nossos braços todos... Mas ainda sim, seremos muito mais do que nome, muito mais que o contorno das letras, que o contorno das membranas celulares, que os números em um registro de identidade, que as linhas dos nossos rostos. Ainda seremos muito mais do que tudo isso. O que somos não é passível de definição, não cabe neste texto.

A mulher trans e o homem trans são como se dizem que são, como o sentem e vibram. Essa coisa de gênero são vibraçoes, nem sempre exatas, que se sente e pronto. É pela liberdade de ser que vos falo. Pela liberdade de reinventar o nome, de desfaze-lo, recriá-lo.

Os corações trans batem independente das porcentagens das mortes, eles batem valentes diante da dureza e indelicadeza dos que não falam outra língua se não a limitada língua das definições emburrecidas. Corações fortes, batem alto e radiantes, vibrantes e continuarão batendo. Nós existimos, apesar de você
apesar de não poder
apesar de não caber.

A reinvenção do mundo e da vida.

Mais amor, por favor!







sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Miga, sua Loka, você não é louca! - A mania de ´´Histerilizar`` a Mulher

CUIDADO! Ela é uma boa pessoa mas anda meio descompensada, maluca, histérica, louca, infantil, impulsiva, nervosa, bipolar, psicótica, neurótica, dependente, fragilizada, ansiosa, paranóica, demente, agressiva, delirante, preguiçosa, é com certeza algum transtorno de família porque a mãe dela é igual, a irmã é igual, a amiga é igual, oh meu Deus minha mãe é igual, minha irmã é igual, todas as mulheres estão à beira de um ataque de nervos, sou um homem perdido nesse mar de loucura e insanidade feminina! Ligue já para 0800 999333444 para internação, CID f.60.31 CID 10F23.3.!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Deu pane no garoto! Ele está, senhoras e senhores, em um estado lamentável pois todas as mulheres a sua volta estão perdendo os parafusos. Ele teme ter que ceder um parafuso de sua própria cabeça, como fez Adão com sua costela a Eva, e então ter que pagar os pecados de uma mulher sem controle, influenciável até! E o que faria este pobre homem sem um parafuso em sua cabeça? Ficaria, assim como elas, louco, insano?  

O Brasil é um pais abarrotado de clinicas psiquiátricas, manicômios, instituições de tratamento psicológico que estão cada vez mais cheias e com um maior número de mulheres. De acordo com uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo, mais de 50% das pessoas internadas são mulheres, sendo que a grande maioria tem problemas como depressão, depressão pós-parto, ansiedade ou transtornos alimentares. O que essas estatísticas nos apontam? Que sim, as mulheres estão enlouquecendo? Mais do que a resposta certa, é preciso fazer a pergunta certa: porque as mulheres estão ficando doentes?  

Com certeza a questão é mais complexa do que essa problematização, mas fato é que a alcunha de piradas e doidinhas nos perseguem há milênios. com a diferença que agora, em tese, não podem mais nos queimar na fogueira, nos torturar em equipamentos nos porões, nos culpar pelos incidentes do mundo nos acusando de bruxaria, não podem mais nos manter em cárcere privado sem falar com ninguém apenas servindo ao marido e parindo 1 criança por ano. Isso no plano ideal, não é? Porque ainda nos acusam de loucas, tiram nossa presidenta do poder estampando o rosto dela nas revistas chamando ela de descontrolada, ainda no meio de uma relação nos fazem crer que é devido a nossa falta de vigor mental que perdemos o controle nas discussões ou nos enfrentamentos das dificuldades da vida. É possível que nosso tempo não tenha mudado muito, mas apenas vestido outra carapuça mais amigável, nos socando goela à baixo pressões, problemas e culpas que correm em nossas veias e explodem nossa razão. Bum! E muitas são internadas e desenvolvem sérias doenças e outras ainda resistem dentro de suas casas com traumas e incapacidade de relacionar-se ou viver. 

Miga, sua loka, nós NÃO SOMOS LOUCAS. Nos ronda um bicho zombeteiro, como vespas à nossa orelha, que se chama culpa que nos faz crer que somos menos do que somos, que nos faz sentir incapaz, ou equivocada com nossa lucidez de como os homens são ou nos tratam. Culpa pelo nosso sexo, por nossos desejos, por nossa arte, nossos impulsos, nossas dores, nossas escolhas... MEA CULPA. Eu mesma, muitas vezes, quando percebo algum machismo doentio a minha volta me pergunto, antes de mais nada: mas espera, será que é mesmo ou eu estou exagerando ou paranoica? Não, não, ele me agrediu! Não, claro que não, eu estou exagerando! Não, ele disse para eu não escrever esse texto porque seria um exagero, porque é reflexo de como estou alucinando ou criando realidades paralelas na minha cabeça, porque feminismo em exagero é doença....etc, etc e tal!

Manas! Lucidez é cabeça em lança. Lança ponte aguda que fura essa rede de controle que tentam colocar sobre nós. Obviamente, nem todos os homens são esclarecidos sobre isso, alguns fazem sem perceber, mas nós devemos estar atentas para mecanismos de auto-sabotagem que nos acometem às vezes e fazem com que pensemos que estamos ´´ fora da órbita da razão``. A razão é toda nossa e estamos mais lúcidas do que nunca! 

Essa mania de ´´ histerilizar`` a gente me dá calafrios! Eu inventei esse termo que junta dois: histeria e estéril. Sinto que a histeria que esse mundo de homens nos causa nos deixa inférteis de nossas próprias ideias, nos castram de nossa própria natureza, tiram a verdade genuína que pulsa dentro de cada um, a sua forma. Nos querem, no fim do dia, apaziguadas, calmas nos lares, organizadas, belas e com as bochechas coradas. Mas não é possível ser assim, quando mora em nós uma inquietude porque nada está bem em nosso mundo hoje. Nós precisamos lutar e a luta, como me lembrou minha querida atriz e diretora Georgette Fadel se não for à força não vai. E nem vai se a força não for nossa. Brecht disse isso e é bem verdade. 

Não há como nos libertarmos verdadeiramente sem barulho ou sem incômodo. Não dá pra moça que mora na favela fazer o som dela sem bradar sua cor e sua desgraça à luz do seu sonho, não dá pra mãe de 5 filhos que mora na periferia mandar o marido abusivo e espancador para rua sem ela mesma fazer do seu cabo de vassoura uma baioneta e, à pauladas, o manter do portão para fora, não dá pra menina lésbica preservar-se de uma agressão ao ser forçada a namorar um rapaz sem sair de sua própria casa e peitar os machos quando preciso, não dá para uma mulher voltar do trabalho às 11 da noite pela rua escura sem levar um spray de pimenta ou uma proteção nos bolsos, não dá para a mulher estuprada pelo próprio parceiro fazer um aborto sem lutar ferozmente com as lágrimas sobre uma culpa que ela nega, não dá pra mais de 50 mil mulheres conquistarem seus direitos sem sair na rua, parar os carros e a rotina e ocupar as ruas com seus gritos e sua massa. Não dá para eu fazer minha arte sem minha dor, sem tua dor, sem agitar os ânimos. 

No último mês fui chamada de louca ou instável ou alcunhas do gênero mais de 18 vezes. Sim, eu contei, à título de pesquisa, não por paranoia. Dessas 18 parte foram por haters dos meus videos na internet, outra parte disfarçado de brincadeira por amigos e outras da boca de homens que confio e amo. Mais da metade das vezes eu acreditei e me condenei, outra parte eu acreditei mas me absolvi devido a intempéries da vida e hoje é a única vez que discordei e amei minha tal histeria: ela é a reação da tua ação, a resposta à opressão. 

Nossos parafusos estão no lugar e eles vão incomodar os que tentaram alterar nossas engrenagens. Girou as rodas da nossa [loco]motiva apitando sem parar. Avançamos furando as alcunhas, o medo, as camisas de força e as zonas de contenção. 

Ligadas estamos.
Atentas ficaremos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Não somos TEMERosas - Mulheres audiovisual na guerrilha

          No primeiro post do Geração M eu falei sobre essa geração de mulheres que incomodam, são as ´´ vulgares´´ e irreverentes e, obviamente, arrasam por isso. Por causa desse post entrei em contato com muitas mulheres que militam através do seu trabalho, da vida e um dos presentes que resultou deste blog foi saber de uma plataforma colaborativa que funciona como um acervo de obras audiovisuais de conteúdos produzidos por mulheres: o Mulheres Audiovisual (http://www.mulheresaudiovisual.com.br/).

         A Amanda Lopes, idealizadora da plataforma, cineasta e militante me fez pensar por uns bons dois dias com o pouco que conversamos. Eu, que estou imersa na escrita do meu primeiro longa, tive o coração apertado por algumas noites. Às vezes tenho impulsos honestos, sonhadores, audazes que ignoram a dureza dos dias, as limitações cotidianas, os enfrentamentos políticos e sociais que deixam nossa alma como carne moída de segunda pra vender no açougue à preço de banana. Esses impulsos são, na maioria das vezes, os responsáveis por certo traço de ´´ sonho``, de utopia, de paixão que me faz criar e acreditar que minha voz pode mover o mundo. É quase a frase de Lya Luft que li na plataforma: meu território é outro... faço parte da manada que corre para o impossível. E assim fico, correndo para o impossível: o mundo da liberdade de ser ouvida e respeitada por quem sou, pelo que crio, pela liberdade de me comunicar, de ir e vir. 

         É curiosa essa sensação que me acomete, de solidão, como se minha corrida fosse sobre um piso de gelo que me tira o calor, a energia e não saio do lugar: nosso brasil de hoje é machista, misógino, racista, direitoso e homofóbico e ainda aqueles que nos lideram, que não me representam, tentam nos controlar pelo medo, nós, burricas de carga, ignorantes e com lombo para trabalhar pra encher seus bolsos e suas panças douradas, aumentar sua linhagem com belas, delicadas e do lar. Pra que estou escrevendo meu filme, afinal? Que tipo de apoio um filme de uma mulher, que fala sobre opressão de mulheres, que questiona um mundo à beira de um colapso teria com dirigentes como os nossos? Quem assistiria meu filme? Quais Judas acabariam beijando minha face e me sabotando depois? 
  
          No meio de todas essas inquietações, que são partilhadas por milhares de artistas mulheres, encontrar a plataforma Mulheres Audiovisual foi um alívio! Ela acabou de nascer e conta com um grupo de mulheres que estão, como eu, insistindo na corrida, vencendo o gelo, fazendo ele derreter com o calor das nossas produções e adubando esse chão seco e apodrecido. Está aí, para todas nós. E elas estão trabalhando, criando este meio de divulgar as produções das outras mulheres, meios alternativos de distribuição de conteúdos, meio, também, de reflexão sobre todas que vieram antes de nós e as que estão aqui! E não é só cinema, tem espaço para música, artigos, produções científicas e outras expressões possíveis.

             A plataforma precisa ser divulgada, precisa de parceiras, precisa gerar mais e mais conexões! Ela é uma trincheira de resistência, muito bem articulada, com muito ''som e fúria" que pulsa desse desejo em comum. Mulheres, manas guerreiras minhas, nós estamos vivas. Essa morbidez que me assoma, essa onda de repressão, às vezes velada, que me tira o ar, precisa ceder espaço para essa energia que flui por nossos tecidos, que acelera nosso coração, que conecta nossas mentes, que nos põe em movimento em direção ao sonho e à luta. Vamos seguir criando e nos comunicando. Acessem a plataforma, entrem em contato, coloquem seus conteúdos disponíveis para serem vistos, discutidos, fomentados.

          Acabou de me passar pela cabeça a música do Geraldo Vandré, criada em um momento não muito diferente do nosso, que diz: ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão. Que nos apontem os canhões, que nos intimidem com os seus falos e não falos, seus nãos, coerções, que continuem nos empurrando para a margem... Há edificações de nossas dores e nossos amores construindo uma cidade inteiramente nova, que pulsa pelo ´bom e pelo melhor do mundo`. Juntas, minhas queridas, avançamos juntas. Já sentem os tremores, as vozes? Eu as ouço todos os dias, acordo com elas: é nossa voz, alta e vibrante. Precisamos da sua voz! Fale, grite, mostre, afronte! O mundo é nosso, nós somos o mundo.

           

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Bela, Genial e Vulgar - A Geração de Mulheres que Incomodam

ATENÇÃO: Elas estão a solta! Paga-se alto por cabeça ou par de tetas. Traze-las vivas, por favor, afinal a exploração e subjugação são de praxe nesta sociedade. 
                
        Sinto que querem minha cabeça e que pagariam muito alto para calar minha boca e vedar meu corpinho em um lugar escuro para que ninguém me veja ou escute. E eu ainda estou, devo dizer, mais ou menos protegida por parcial anonimato. Ainda sou um perigo controlável e de pouco efeito de choque. Fico pensando em como estão as manas, que já provocaram fissuras no sistema machista, patriarcal e branco: Karol com K, MC Carol, Djamila Ribeiro e muitos outros nomes que ficam provocando, em alto estilo, mudanças e questionamentos. 

        Já era meados do século XX e  Adrienne Rich deu a deixa: ´´ As conexões entre as mulheres são as mais temíveis, as mais problemáticas e as forças mais potencialmente transformadoras no planeta´´.  A força da revolução feminina não está somente na resistência colossal de quem gesta o mundo, mas na revolta de eras de repressão, violência e objetificação.  

        Cansamos de ser sexy, ideal, polida, criada para a tradicional família brasileira, sustentáculo dos preconceitos e controladores dos ânimos. Me pediram para ser mais responsável, mais discreta, menos vulgar nos meus videos, na minha arte e na minha vida. Nos pediram para sermos mais equilibradas emocionalmente, para não estressar não é? Nos pediram para fazer menos barulho: pode militar, mas não façam fuzarcas, sim? Feminazi!

         Nos pediram isso com o mesmo tom que pedem para uma mulher falar baixo em público, cobrir o busto ou expor o busto, com o mesmo tom de quem diz ´´bem feito quem mandou abrir as pernas`` , me pediram da mesma forma que pedem as mãos dos homens sobre suas esposas, ou as artimanhas psicológicas de ameças quando a mulher expõe desejos e desgostos, com a mesma malícia inocente da manipulação discreta dos esquerdo-machos que diminuem a mulher à sua sombra lhe afanando a cabeça como cachorro doméstico: ´´vejam como é bem tratada e respeitada e livre, tem todo o quintal para brincar!´´. Nós já derrubamos as cercas dos quintais,  as paredes das casas. Já levantamos as saias, baixamos as saias, escondemos e mostramos as tetas, trocamos e não trocamos o nosso sexo, bradamos nossa voz à luz das nossas singularidades. Tudo isso por vontade própria, por afirmação da nossa independência.  

        Somos a geração de mulheres que incomodam, perturbam os conservadores, assombram os direito-machos, torturam os esquerdo-machos, dão pesadelos nas mães que tem medo de engolirmos seus filhos, arrancamos os cabelos dos pais que querem controlar suas meninas, ou dos que nos abandonaram, irritamos os fanáticos religiosos que querem nos colocar a culpa pela renúncia à maternidade, renúncia ao casamento, renúncia à resignação, assustamos os chefes das instituições quando tomamos seu poder, envergonhamos a alta classe brasileira porque somos vulgares, e o somos porque não temos medo, não queremos mais nos esconder.
             
        Cada mulher tem sua pele, sua história, seu coração que bate por uma razão. A vulgaridade que nos atribuem é o orgulho e irreverência que nos é característico, porque escancaramos quem somos, escancaramos nossos defeitos, nossas gorduras, nossos ossos, nossas cicatrizes, nosso sorriso e nossa revolta: tudo está à mostra.
    
        Este primeiro texto do blog da GERAÇÃO M, ´´m´´ de mulher e de midia, geração das midias, das comunicações, geração também trans, das transformações. Somos todas geniais em nossa coragem, nossa articulação. Somos todas belas, nada recatadas ou recalcadas. É a liberdade absoluta das mina, dessa geração que não teme e sabe a que veio.
 
        Feminismo não é onda nem é moda e nem está acabando, ao contrário, é um mar inteiro, revolto que vai tomar as ilhas secas de um mundo de uma sociedade machista e patriarcal. 
            
                                         Nosso tempo acabou de começar.