"Darkness cannot drive out darkness; only light can do that. Hate cannot drive out hate; only love can do that"
''A escuridão não pode nos conduzir para fora dela, somente a luz pode fazer isso. Ódio não pode nos conduzir para fora dele, somente o amor pode fazer isso".
Martin Luther King, Jr.
Minha escrita hoje será simples, mas nada simples são os pensamentos e sentimentos que se agitam dentro das minhas sinapses, dos meus nervos. Geralmente, quando escrevo por aqui, exercito meu pensamento de composição com a palavra, de contar uma história e me deixar levar pelo conto, pelo causo. Alguns dizem que isso é um disfarce próprio dos atores de dizer, através da boca das personagens, algo que nem ele mesmo compreende sobre si. Mas hoje não terão personagens.
Pensei muito sobre o resultado das eleições de ontem, tenho lido os comentários, ouvi o discurso do Fernando Haddad e do Bolsonaro e a palavra que se precipita é LIBERDADE. ''Não há ninguém que explique e ninguém que não entenda", como diz o poema, mas mesmo assim veste formas ambíguas.
O discurso de ódio é uma erva daninha no que entendemos como democracia, é um ''monstro a roer as raízes", como disse Virginia Woolf. Acredito que houve uma distorção do sentido da palavra liberdade e do entendimento sobre responsabilidade social, democracia e civilidade. Não é possível para mim votar em um homem que disse as coisas que disse sobre homossexualidade (''o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro. [...] Eu não corro risco de ter filho gay porque dei uma boa educação"), sobre mulheres (''jamais iria estuprar você porque você não merece", ''dei uma fraquejada e veio mulher") , sobre negros (''eu não entraria num avião pilotado por um cotista nem seria operado por um médico cotista"/ ''o afro descendente mais leve lá pesava 7 arrobas'') , sobre ditadura e tortura (''e fazendo um trabalho que o regime militar não fez matando uns 30 mil"), impostos ("inclusive xará, conselho meu, eu sonego tudo que for possível") etc etc. Esses videos são públicos e de conhecimento de todos, link abaixo*
Muitos que votaram no Bolsonaro, conhecidos meus, não comentaram sobre essas postura dele mas sim alimentaram uma aversão ao PT, algum discurso cheio de revolta e ódio contra a política, ou defenderam uma ou outra causa que na visão deles os favoreceria caso Bolsonaro fosse eleito.
Obviamente, as pessoas que votaram no Bolsonaro são livres para votar nele e exerceram seu direito, mas também não é simples entender que a liberdade não significa "poder tudo". A liberdade de um, dentro de uma sociedade, implica no limite da liberdade do outro. Ser livre não significa que posso pegar uma arma e atirar em alguém porque sou livre para agir, ser livre não significa que posso ofender alguém porque eu quis, ser livre não significa ausência de limites. Isso é uma visão totalmente distorcida de liberdade que não considera a existência do outro, do desejo e da própria liberdade dos demais. A paz depende do poder da EMPATIA, que é a habilidade de se colocar no lugar do outro e de compreender que existir é uma dança harmoniosa das individualidades e das independências. Viver em sociedade e os relacionamentos no geral exige uma capacidade de conciliar as pulsões individuais com as do coletivo, significa ter sabedoria para entender as diferenças de pensamento, de respeitar que o outro tenha uma visão diferente da sua.
Tudo isso se torna paradoxal quando penso na eleição do Bolsonaro, porque eleger um homem que prega algum tipo de coerção, de violência e de postura anti democrática é, de certa forma, um exercício equivocado de liberdade, não considera o coletivo e não tem uma análise politico social que vá além do ''não elejo PT corrupto". Quem me dera fosse assim, tão simples. Trágico pensar naqueles que elegeram Bolsonaro para fugir da violência e apoiaram um discurso muitas vezes cheio de ódio, ou que, lutando contra a violência e a corrupção, clamam "cala a boca desses petistas de merda" ou elegeram um homem que sonega os impostos.
Paradoxo...
Paradoxo...
Tão simples e tão complexo! Como tudo que é genuinamente humano. Estaremos fadados a nos implodir com nossa contradição? Como diria Pagu: "Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre".
Nina Simone disse que liberdade é ausência de medo, e é uma bonita definição. Ausência de medo para todos, e não uma parcela. Eu tenho medo mas não serei paralisada por ele, usarei como força motriz para seguir com a arte e o poder que ela tem de aproximar os abismos das almas avessas e reversas. Quem sabe os sonhadores ainda conseguem mudar o mundo, como cantou Geraldo Vandré em um dos períodos mais obscuros e violentos da história do nosso país:
" Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou nãoNas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer
Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão"....
*https://www.youtube.com/watch?v=n5Kfeiu4QAM&t=69s





