segunda-feira, 29 de outubro de 2018

LIBERDADE, EMPATIA : AS FLORES CONTRA O CANHÃO



"Darkness cannot drive out darkness; only light can do that. Hate cannot drive out hate; only love can do that"
''A escuridão não pode nos conduzir para fora dela, somente a luz pode fazer isso. Ódio não pode nos conduzir para fora dele, somente o amor pode fazer isso".

Martin Luther King, Jr.





         Minha escrita hoje será simples, mas nada simples são os pensamentos e sentimentos que se agitam dentro das minhas sinapses, dos meus nervos.  Geralmente, quando escrevo por aqui, exercito meu pensamento de composição com a palavra, de contar uma história e me deixar levar pelo conto, pelo causo. Alguns dizem que isso é um disfarce próprio dos atores de dizer, através da boca das personagens, algo que nem ele mesmo compreende sobre si. Mas hoje não terão personagens. 

         Pensei muito sobre o resultado das eleições de ontem, tenho lido os comentários, ouvi o discurso do Fernando Haddad e do Bolsonaro e a palavra que se precipita é LIBERDADE. ''Não há ninguém que explique e ninguém que não entenda", como diz o poema, mas mesmo assim veste formas ambíguas. 

          O discurso de ódio é uma erva daninha no que entendemos como democracia, é um ''monstro a roer as raízes", como disse Virginia Woolf. Acredito que houve uma distorção do sentido da palavra liberdade e do entendimento sobre responsabilidade social, democracia e civilidade. Não é possível para mim votar em um homem que disse as coisas que disse sobre homossexualidade (''o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro. [...] Eu não corro risco de ter filho gay porque dei uma boa educação"), sobre mulheres (''jamais iria estuprar você porque você não merece", ''dei uma fraquejada e veio mulher") , sobre negros (''eu não entraria num avião pilotado por um cotista nem seria operado por um médico cotista"/ ''o afro descendente mais leve lá pesava 7 arrobas'') , sobre ditadura e tortura (''e fazendo um trabalho que o regime militar não fez matando uns 30 mil"), impostos ("inclusive xará, conselho meu, eu sonego tudo que for possível") etc etc. Esses videos são públicos e de conhecimento de todos, link abaixo*  

            Muitos que votaram no Bolsonaro, conhecidos meus, não comentaram sobre essas postura dele mas sim alimentaram uma aversão ao PT, algum discurso cheio de revolta e ódio contra a política, ou defenderam uma ou outra causa que na visão deles os favoreceria caso Bolsonaro fosse eleito. 

    Obviamente, as pessoas que votaram no Bolsonaro são livres para votar nele e exerceram seu direito, mas também não é simples entender que a liberdade não significa "poder tudo". A liberdade de um, dentro de uma sociedade, implica no limite da liberdade do outro. Ser livre não significa que posso pegar uma arma e atirar em alguém porque sou livre para agir, ser livre não significa que posso ofender alguém porque eu quis, ser livre não significa ausência de limites. Isso é uma visão totalmente distorcida de liberdade que não considera a existência do outro, do desejo e da própria liberdade dos demais. A paz depende do poder da EMPATIA, que é a habilidade de se colocar no lugar do outro e de compreender que existir é uma dança harmoniosa das individualidades e das independências. Viver em sociedade e os relacionamentos no geral exige uma capacidade de conciliar as pulsões individuais com as do coletivo, significa ter sabedoria para entender as diferenças de pensamento, de respeitar que o outro tenha uma visão diferente da sua. 

      Tudo isso se torna paradoxal quando penso na eleição do Bolsonaro, porque eleger um homem que prega algum tipo de coerção, de violência e de postura anti democrática é, de certa forma, um exercício equivocado de liberdade, não considera o coletivo e não tem uma análise politico social que vá além do ''não elejo PT corrupto". Quem me dera fosse assim, tão simples.  Trágico pensar naqueles que elegeram Bolsonaro para fugir da violência e apoiaram um discurso muitas vezes cheio de ódio, ou que, lutando contra a violência e a corrupção, clamam "cala a boca desses petistas de merda" ou elegeram um homem que sonega os impostos.

Paradoxo...

    Tão simples e tão complexo! Como tudo que é genuinamente humano. Estaremos fadados a nos implodir com nossa contradição? Como diria Pagu: "Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre". 

      Nina Simone disse que liberdade é ausência de medo, e é uma bonita definição. Ausência de medo para todos, e não uma parcela. Eu tenho medo mas não serei paralisada por ele, usarei como força motriz para seguir com a arte e o poder que ela tem de aproximar os abismos das almas avessas e reversas. Quem sabe os sonhadores ainda conseguem mudar o mundo, como cantou Geraldo Vandré em um dos períodos mais obscuros e violentos da história do nosso país:

" Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão"....
*https://www.youtube.com/watch?v=n5Kfeiu4QAM&t=69s
PUBLICIDADE

quinta-feira, 8 de março de 2018

A REVOLUÇÃO DA EVA - MANA, É A TUA HORA!



INFORME: Eva comeu a costela do Adão num banquete com a serpente, um primor. Ela cansou de levar a culpa pela libido masculina (e a sua própria). Resolveu, numa fenda espaço/temporal, mudar o curso da história.
Durante o banquete, Adão tinha uma maçã na boca.  




    Perdão pela profanação da história santa sobre o homem e a mulher e a aparente violência do canibalismo. Mas sou brasileira e artista, de certa forma filha da antropofagia da década de 20 e não consegui evitar a simbologia - e a ironia. Engolir a costela da qual nascemos, mastigar, amolecer a rigidez da prisão política, espiritual e social na qual estamos. Um tarefa milenar nada fácil! Colocar na boca dele a maçã símbolo do pecado que nos entortou a coluna e o tino!

    O sonho da igualdade de gênero ainda me ronda. Eu acredito que isso é possível, o respeito, a tolerância. Apesar  da aparente liberdade de expressão das redes sociais, elas instauram uma permissão ao ódio, uma violência estranha que sempre se precipita quando falamos de feminismo. Em resposta, o agredido se rebela violentamente contra seu agressor e o ciclo de vinganças não para. 

    Inevitável não pensar no peso das milhares de mulheres violentadas, subjugadas, humilhadas, castradas no mundo... O que carregam no coração? Amor e dor! O que fazemos com tanta dor? Não conheço nenhuma mulher que esteja inteira, intacta. Todas possuem cicatrizes, às vezes impossíveis de ignorar, como cavalos selvagens marcados pelo chicote. Mas já cavalgamos livres e indomáveis e  insistimos em transformar essas dores em mudança no mundo: luta por espaço e respeito. 

    Como falar para aqueles que não querem, não conseguem ou não sabem nos ouvir? O dia da mulher me faz questionar como se luta. O tempo inteiro precisamos lutar para lutar, e cada vez de forma mais efetiva e urgente pois as cabeças das Evas, Medusas, Medeias ainda rolam por aí, aos montes! 

      De acordo com a ONU, 7 em cada 10 mulheres já foram ou serão violentadas física, psicológica ou emocionalmente. E quando lutamos ferozes nas ruas com nossas tetas para fora em sinal de revolta, vira uma grande caça às bruxas e o discurso de igualdade é encoberto com uma capa de misandria. A velha tentativa de nos fazer afogar em nossas próprias ideias: ou é loucura ou extremismo.

       Eu amo os homens, mas odeio o que se tornaram e o que a sociedade repetidamente machista faz com meninos que se tornam homens embrutecidos e castradores, medrosos, com ego ferido e inflado como um balão no céu. Por causa deles não vemos o sol, mas ele brilha forte e uma hora o balão explode ou murcha. 

      E a culpa, queridas... A culpa recai sobre nós, madonas ou medonhas! Eles não se decidem, não sabem como se  portar diante do nosso empoderamento. Resta a nós saber por eles, controlar as rédeas dos lobinhos feridos desorientados que se acostumaram a organizar nossas emoções em estruturas familiares que nos deixem comportadas e doces.  

    Desejo neste dia da mulher sabedoria em nossa luta, o fim de violências e discriminações de qualquer natureza, desejo liberdade sexual, ideológica, sentimental! Desejo FORÇA para que possamos resistir às ignorâncias. E mesmo depois de tanto, ainda ser capaz de sorrir e amar, que a luta não nos deixe amputadas de nossa própria sensibilidade.




        

sábado, 18 de março de 2017

Eu não sou SUA mulher - As amarras da Família Tradicional Brasileira

AVISO IMPORTANTE: Caríssimos, vocês estão todos convidados para o casamento de Paulo de Castro e Ana Lima na Catedral do Centro da Cidade. Levem seus presentes aos noivos! Ana agora se chamará Ana de Castro, para atestar que é propriedade de seu digníssimo marido e deve passar o nome do ALFA para seus sucessores - que aliás não devem demorar muito para vir! Além disso, ela se casará de branco, branco meus senhores! Estampando a pureza e que é uma mocinha de modos: pura, casta e obediente. Tudo branco, tudo limpo sem sujeiras, traições ou marcas de uma personalidade forte e, como brinde, estará sempre com um sorriso na cara! 


Me pergunto quantas mulheres como Ana casam-se nestas condições hoje. Me pergunto quantas casam-se nesses moldes contra a vontade e quantas sonham com isso. O que significa perder um nome seu para colocar o do marido? Por que não é aceito o contrário, por exemplo, o marido, por escolha de ambos, adotar o nome da esposa? O que significa crescer sonhando com o vestido branco e o altar, e deparar-se com os olhos esbugalhados diante do noivo, com um espartilho opressor, hipócrita e moralista?

Era Março de 2017, quando o não eleito presidente Michel Temer saúda as mulheres no 8 de Março virando piada internacional. Ele, em comemoração a um dia que simboliza a luta pela igualdade de gênero, elogia as habilidades domésticas das fêmeas, sua importância unilateral na criação dos filhos, e a capacidade de ´´indicar os desajustes de preços em supermercados e flutuações econômicas no orçamento doméstico``.  

Por causa disto, queria ter escrito aqui um dia após este evento que me deu o que pensar por dias. Acho que fiquei me revirando entre opressões dissimuladas, escancaradas e agudas de uma sociedade ainda de homens, acumulando aberrações, insultos de meus governantes, de meus companheiros, de meus amores. Fiquei paralisada diante dos moldes da Familia Tradicional Brasileira que ainda são uma sombra nos afetos e na liberdade, que ainda tentam socar goela abaixo de nosso imaginário um ideal de estabilidade.  

Ana realizou o sonho de casar-se no altar, vestiu-se de branco, mas recusou o nome do marido: ela tinha orgulho do próprio nome e de sua história. Separou-se depois que a filha nasceu. Sua filha nunca conheceu as frases te amo pai, boa noite pai, obrigada pai. Nunca teve pai. Ele não achou fundamental acompanha-la nessa vida. Ele não cumpriu os votos de fidelidade, companheirismo e amor que jurou diante de Deus no altar.

A filah de Ana não teve pai, mas teve mãe, que fez tudo que meu pai deveria ter feito e, como a maioria dos homens deste pais e do mundo, acham que filho nascido é responsabilidade mais da mulher que dele, aliás, que a filha mulher é um pouco menos importante.

A filha de Ana, Laura, cresceu se perguntando se a sensação de incompletude que a tomava desde cedo era pela falta do falo entre as pernas. Perguntou-se, na ingenuidade doce e infantil, que talvez se fosse um menininho forte seu pai a tivesse amado. Ou ainda, se Ana tivesse se subjugado às forças controladoras de papai, ela teria prolongado seu casamento; Se ela tivesse se mantido cega aos fatos, talvez o casamento estivesse de pé sustentado pela mentira e hipocrisia de tantos outros. Talvez ela fosse hoje uma mulher casada com os nervos arrebentados, sua fúria contida como cavalo selvagem amarrado pela boca, salivando raiva, andando torta com viseiras que a permitem ver somente o que mandam ver. 

Ana não foi capaz. Ela é forte de mais e amante de mais das verdades e das corridas livres. Laura cresceu ouvindo que não deveria deixar nenhum homem dizer o seu valor, cresceu ouvindo que o amor existe e ele vale a pena.  Eu mesma cresci treinada para as corridas livres, com sonhos ousados, ideais e, mesmo depois de tudo, que família era importante e era possível. Cresci ouvindo histórias de amor, vendo os olhos de meus avós brilharem depois de 60 anos de casado um pelo outro. Eu cresci na contradição e morei no desequilíbrio. 

O que é família, afinal? Qual a importância e os limites da tradição? Quando penso em casamento ou moldes familiares tradicionais penso em uma construção histórica social e política. Penso em uma estrutura burguesa que define padrões, regras e limites. Vejo uma tradição secular que se reproduz e me agrada muito quando ela se reproduz reinventada, porque a tradição não pode ser morta ou emburrecida, ela deve dialogar com o presente e se transformar em outra coisa: eu acredito na tradição viva. 

No Brasil, segundo o IBGE, temos 60 mil famílias homoafetivas, casais que construíram um núcleo familiar alterando a heteronormatividade: são dois pais, duas mães, ou apenas dois amantes com seus amigos. Mais de 30% de famílias são compostas apenas pela mãe e outros membros familiares.  Em 2011, o ministro Ayres Britto declarou que ´´A constituição Federal não faz a menor diferenciação entre a família formalmente constituída e aquele existente aos rés de fatos. Como também não distingue entre a família que se forma por sujeitos heteroafetivos e a que se constitui por pessoas de inclinação homoafetiva``.

Mas a nossa querida Constituição Federal não conseguiu apaziguar os ânimos sociais, e as famílias fora do ´´ padrão`` sofrem com isso interna e externamente, porque a sombra da tradição familiar burguesa nos assola quando põe em cheque suas próprias bases: monogamia, fidelidade, papel da mulher, papel do homem, filhos e divórcio. 

O casamento e a família tradicional brasileira pode ser um amarra e com certeza é uma contradição. Digo que ela pode ser opressora caso passe por cima da liberdade de escolha e do esclarecimento diante da norma. Não critico a mulher que quer casar-se de branco, ou casais que sonham com o altar, ou cerimônia religiosa ou cultural, apenas acho perigoso quando isso é escopo para manipulação e subjugação, principalmente quando se trata da mulher e as tentativas, mesmo que inconscientes, de mante-la sob controle. A família é contraditória porque ela tem pequenas normas, mesmo que reinventadas, que se chocam com as humanidades - por essência contraditórias: o amor, aí está a base fundamental e a mais complexa de todas, que nos joga de um lado a outro tirando o sono dos poetas e perturbando os racionais. No fundo o amor ri na cara da monogamia, da poligamia, do casamento, dos affairs, das leis e da política. O amor ri da cara de tudo isso e ainda se impõe nos obrigando a enlouquecer ou a reinventar um mundo possível. 

Eu acredito na reinvenção. 

Eu sou mulher, tenho 25 anos e sou atriz. Não tenho uma profissão formal aos olhos da sociedade e nem uma personalidade amena para a Tradicional Família Brasileira. Ainda sim, eu acredito no amor e na família que é o que tiver que ser no limite das honestidades e dos afetos sinceros. Não quero ser a mulher de ninguém, como propriedade, não quero que ninguém ponha seu nome em cima do meu, ou me dê funções na casa, ou me diga o que que posso ou não fazer. Eu acredito na família calcada em liberdade e esclarecimento, em escolhas, em amor pelas contradições de seres humanos vivendo juntos. 

Não aceito nenhuma mulher reduzida à sombra do marido, não aceito minha expressão, minha alma e minhas ideias reduzidas à meras insignificâncias como ´´ flutuações do orçamento doméstico``. Não precisa falar floreado e bonito para dar mais importância a uma ´´função feminina``, caro presidente. Alias, eu amo a boa poesia assim como amo o bom palavrão: vá à merda. 
Estou farta das insignificâncias que nos colocam, ou amarras. Estou farta da insignificância que reduzem o meu choro e o choro de tantas. Vou colocar nossas insignificâncias no meio da rua com meu verbo precoce que não servirá a nada que não seja por vontade própria. 

Não sou mulher de ninguém. Sou mulher de mim mesma. 

Meus seios estão a mostra.
E não é para agradá-los. 
Meu corpo está à mostra.
E é porque sou livre. 
Minhas ideias, minha dor e meu amor estão aqui e lá.
E assim ficarão
Porque eu escolhi.

Manas...

O tempo é inteiramente nosso. 







sábado, 25 de fevereiro de 2017

O seu machismo carnavalesco goela abaixo - A velada violência psicológica

WARNING - Mais uma vez estamos aqui, senhoras e senhores, em negrito, destacando nossa irreverência e ironia diante dos causos. É carnaval e tudo pode! Não é possível que se leve tudo a sério nesta pocilga! É evidente que esta moça faz jus ao nome ao incitar essa barbárie contra homens tão de bem como esses companheiros das mulheres - atenciosos, apoiadores da liberdade da mulher, criadores de damas audazes prontas para desflorar o virgem pântano das relações modernas! Nada melhor que o carnaval, não?! Íntegros rapazolas que jamais levantarão a mão para elas, apenas as deixarão dançar com as tetas em seus rostos! Denuncie já qualquer denúncia contra eles! É crime! Barbárie, violência e discórdia nos lares! 


Pelo amor de Deus, calem a boca! Calem suas bocas para que eu deixe de calar a minha por alguns segundos. Me deixem respirar, ''desabotoem minha blusa", como diria Pagu, deixem que ouça algo além das suas ideias, algo além das regras de como devo ser, criar, transgredir, agir, pensar, amar, desamar, etcétera.  Sinto que existem muitos machos rondando as manas e sob o falso pretexto de libertá-las, as coagem, sob o falso pretexto de festa libertária, aproveitam-se.


Engraçado esse negócio todo de carnaval e falar de violência psicológica em meio ao clima de festa. Carnaval pra mim sempre foi difícil, doloroso e melancólico, como um palhaço triste de circo que chora quando fecham as cortinas, como se vestisse sempre a fantasia da alegria e guardasse um pesar por baixo da máscara. Violência psicológica é quase isso, quase essa sensação de que tudo parece bem e o problema está dentro da nossa ´´cuca descontrolada de mulher``.

Passei por um relacionamento abusivo e só me dei conta de que ele era abusivo com seu término traumático e revelador de verdades grotescas. Ele era um bufão, montado sobre mim fincando suavemente suas esporas em minhas costelas, fazendo-me desfilar pela rua com seu bloquinho, abrindo alas para que ele passasse com seu sorriso à serviço do seu ego.

Tire seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor! Se eu montasse um bloco de carnaval com a dor de todas as mulheres que sofrem com essa velada violência psicológica de seus parceiros eu tomaria quarteirões com milhares de choros sem vela, sem fita amarela, sem luz, escondidos e sorrateiros como é esta tal violação de nossa psiqué. É difícil perceber, caríssimas e caríssimos, muito difícil. Velado para todos a nossa volta, velada para nós mesmos.

A Organização Mundial da Saúde reconheceu que a violência há muito não é mais só física, mas pode ser psicológica, como falou muito bem o artigo do site tautonomia.com.br, dizendo que essa violência é qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou que vise degradar ou controlar ações da parceira, comportamentos, crenças, decisões, seja por ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância, perseguição, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e por aí vai.

Quantas vezes seu parceiro ou colega de trabalho ou amigo ou crush do bloco de carnaval fez isso? Quantas liberdades foram tolhidas, ideias jogadas fora, olhos ofuscados e fechados com tanta purpurina dos machos-alfa libertadores? O pior é isso, se eles não nos violentam conscientemente, eles o fazem de forma tão intensa com seus impulsos, tão cheia das ´´ boas intenções`` que nos amarram em dúvidas e nos enclausuram na insegurança.

Abuso em qualquer relacionamento não é normal.

Lívia tinha 23 anos quando conheceu Marcelo, 3 anos mais velho que ela. Para ele já começava por aí a superioridade dele por ter vivido os 3 anos a mais, sabia de segredos da vida que ela desconhecia.

Ela
amava
Ele.

Livia era poeta, livre com suas palavras, queria engolir todas as vírgulas do mundo: um texto sem os limites das pontuações. Ela acreditava em tudo que ia além do homem, nas conexões atômicas de nossa anatomia, na energia, no belo, no bom... Ela era uma idealista incorrigível, uma sonhadora. E porque era assim que o mundo lhe tinha cativa.

Aos olhos de todos Livia e Marcelo eram o casal perfeito: ele a apoiava, nutria seu trabalho participando ativamente de suas conquistas, planos, admirava sua ousadia de 3 anos mais nova. Ela escrevia todos os dias, depois a cada 3 dias, a cada mês...

Não escrevia mais.

Ontem encontrei Marcelo na esquina da Augusta com glitter e vodka na cara, sorriso largo, umbigo apontado para o céu com seu gingado de sambista. Abraçou-me apertado, molhado e demorado. Falou sobre o livro que escrevera, sobre o Rio de Janeiro e suas oportunidades para artistas, da sensação de leveza que sentia depois de separar-se de Lívia, afinal ela era uma jovem descontrolada de uma classe social inferior, com mais ideias que ações, fadada ao esquecimento de fogo fátuo que era, sugando-lhe as energias com sua vida de mocinha rebelde, atrapalhando a ordem familiar. Beijou-me o rosto e foi-se com o bloco com confetes grudados em seu suor.

Alguém quer ouvir o que Livia tem a dizer? Onde está ela? Porque não dança nas ruas hoje? Porque não escreve mais?

Ela era a casa linda comida por dentro pelos cupins de Marcelo prestes ao desmoronamento. Ele nunca bateu nela, como poderia ter sido tão violento? De que modo um homem pode violentar uma mulher e transforma-la em uma sombra de si mesma?  De que modo podemos nós, mulheres, perceber isso e lutar contra essas amarras sufocantes que nos enterram 7 palmos abaixo dos pés dos machos?

Depois de ficar um bom tempo em sua própria companhia, ela deu-se conta de tudo: não podemos trocar nossos sonhos, nossa vida, nossos desejos, não podemos deixar de amar quem somos para caber na ideia da mulher ideal que nos colocam. Não podemos deixar que nossos parceiros, com a desculpa do amor, nos subjuguem com inseguranças para nos controlar. Não podemos desconfiar de nossa coragem, nossa fúria de cavalo selvagem, quando algum homem nos dizer que podemos ou não podemos ascender no trabalho, começar uma nova carreira, ter ou não filhos. Precisamos de vigilância constante de nossa própria alma e nossa própria natureza.

Livia agora é livre. Ele não conseguiu detê-la. Ela decide por si e ama suas decisões. Suas falhas lhe pertencem, assim como suas fragilidades, sua força e tudo o que é está estampado com orgulho em seu rosto. A violência psicológica nos cega diante do espelho, borrando a imagem de quem somos, tapando nossos ouvidos para como bate nosso coração.

Mana, não importa que idade você tenha, quantas crises viveu, quantos amores morreram e nasceram de teus poros, é preciso ser guarda de si mesma. Não é coisa na sua cabeça, não é imposição social, é violência e ela precisa acabar.

Rebele-se, mude, liberte-se.

Comunique ao mundo qualquer sensação de angustia, não deixem que abotoem sua blusa até o gogó do pescoço. Já estamos alertas e unidas para os perigos velados.
Saia no carnaval com tua dor ou sua alegria.

Mas saia.

Não sob homem algum, mas sobre teus próprios pés.

´´Se não for pra andar junto, não ande``.

Denuncie, faça barulho.

Liberdade antes que tarde...
Mas liberdade.














Texto: O que é a Violência Psicológica? 
Fonte: www.tautonomia.com 






terça-feira, 31 de janeiro de 2017

I'm a girl and I have a cock! - Visibilidade Trans sem Violência

SENHORAS, SENHORES... Ao sentarem, por favor, separem-se: mulheres para a direita, homens à esquerda e os indecisos pairem sobre nossas cabeças, mas sem cair por favor! Pairem com graça sem desgraças ou incômodos. 


Faz tempo que me pergunto sobre os limites da carne, dos ossos. Me pergunto isso com certa agonia, como se o limite da pele fosse um limite tal a ponto de nos oprimir, como se, na verdade, eu quisesse transcender meu corpo, ir além dos limites da pele e rasgar-me inteira... Virar ar, vento, energia cinética.

Meu nome é ... 
Meu nome,
meu
nome
é...

Dizem que quando se nomeia algo, dá-se alma. A alma vem com o conjunto ordenado de letras, como uma magia, um encanto. Chamaram-na de Leonardo, quando rompeu o ventre de sua mãe. Rompeu gritando rasgado como animal abatido, relutando como se não quisesse entrar para este mundo. Nasceu um bebê bem dotado, segundo o médico que, ironicamente, disse a todos da sala: é homem e não há como ter dúvidas! Risos contentes, satisfeitos.  Sua mãe chamou assim, Leonardo, porque significa pessoa valente, como um leão, corajoso, viril.

Mas existe no mundo um negócio curioso - a contragosto dos céticos controladores - um tipo de energia elementar que faz crescer todas as flores, movimentar todos os astros. A mesma energia que nos concede desejo, passado, presente e futuro. Essa energia chamaram alma ou espirito, ou força vital, ou personalidade, ou muitos outros nomes. Curioso esse negócio de nomear as coisas, principalmente quando uma coisa tem muitos nomes. A árvore, caso se chamasse pliti, ainda seria o que é com outra designação? Ainda daria os mesmos frutos, com a mesma cor, tamanho, exuberância se tivesse outro agrupamento de letras que não a-r-v-o-r-e? Se sim, podemos inferir que o nome não modifica, concretamente, a coisa. Mas a coisa se modifica quando o nome significa algo para nós, ou seja, o nome se relaciona com nosso imaginário, com nossa história e nossa definição das coisas a partir dele. O nome importa para nós e nosso mundinho, não para a essência da coisa como é.

O mesmo acontece com Leonardo, que nunca se importou com as definições sobre si mesmo, no que diz respeito a sua natureza: por mais que os grandes ´´ elementos`` entre suas pernas o impusessem muitas classificações, eles negavam sua natureza íntima, mais que isso, feriam. Essa virilidade, esse gênero do macho, esses impulsos viris dos Leonardos não lhe cabiam. Tudo isso se fazia estranho, desconfortável, deslocado.  Ele era ela, nasceu ela, sempre foi ela. De dentro, através da sua retina, dentro do mundo existente atras das paredes de suas células ele sentia-se uma menina, e depois uma mulher. Ela debatia-se, como átomos em ebulição agitados e desordenados, dentro de um corpo agressivo e opressor que a impedia de ser. É um estado constante de sufocamento, como se estivesse submersa sob a própria pele, a sombra de um nome e de um gênero oposto ao seu.

 ´´Como é difícil olhar-se no espelho`` - escrevera ela em seu diário. Gostava de chamar-se Maria porque significava... significava... Um som bom a seus ouvidos. Ela era Maria para si e os amigos íntimos. Maria que amava vestir vermelho, odiava pintar as unhas, gostava dos cabelos compridos e levemente anelados, gostava de Bon Jovi e de tocar piano, odiava seus músculos, sua estrutura óssea forte e robusta, machucava-lhe os pelos do rosto que rasgavam sua pele e, mais ainda, a alcunha que virou ser chamada de Leonardo, o enfrentamento dos pais, as pílulas anti-psicóticas que tomara de médicos - afinal é um ´´ distúrbio tratável esse de querer ser mulher não é doutor?``.

Ela não queria, era. Ela era uma mulher em um corpo de homem. E como saber isso? E isso pode? O que significa, afinal, a palavra mulher, ou o gênero mulher?  É preciso ter um corpo como tal? Se a mulher não precisa agir de acordo com imposições sociais, se ela é soberana de si mesma mesmo quando foi subjugada a progenitora do lar, ou a salários mais baixos, ou a serva de seus esposos... a mulher não tem lutado para sua igualdade, sua liberdade dessa cultura machista, que não a obriga a nada,  mas a liberta e lhe dá escolhas? E seria possível uma mulher, por alguma dança inexata de cromossomos, átomos e reações, estar presa a um corpo masculino?

Maria demorou 12 anos para conseguir fazer sua cirurgia total de mudança de sexo, apanhou 12 vezes na escola e duas na rua. Agora, sentindo-se no corpo ao qual pertence, ela poderia ser mais completa, mas nunca totalmente. E não pela sombra de não ter nascido mulher, porque por mais que sejam muitos os nomes que a classificam: mulher trans, trans, pessoa com distúrbio de identidade de gênero, etc etc e tal, ela era quem sempre foi: mulher. Ela nasceu e morreu assim.

Ontem, 30 de Janeiro de 2017, Maria teve o crânio estourado as 3:45 da manhã por um homem de 56 anos, alcoolizado e raivoso, militante em defesa da ´´ natureza`` e disposto a acabar com aberrações como ela. Maria é mais uma. Há homens transgêneros. Há, também, os que são gênero não binário, nem homem, nem mulher. Mais de 2% da população mundial não se identifica com o gênero com qual nasceu,sendo que 46% das mortes é causada por tiro, 24,2% por punhalada, 12,8% por paulada, 4,4% por estrangulamento, 2,8% por apedrejamento, 2% por desmembramento, 1.9% por asfixia, 1,5% por tortura, 1,4% por queimadura, 1,5% por atropelamento.

Números, porcentagens.

Quantos mais terão de morrer? Quantas definições vão nos colocar, que nos prenderão ao corpo com qual nascemos? Com quantos nomes teremos que andar pendurados em nossos pescoços que nos ofendem, que agradam ao imaginário social ideal, machista, misógino, homofóbico, transfóbico e racista? As palavras homem e mulher  não só não dão mais conta de definir nosso espírito, como também foram desmembradas em mais de 33 tipos de gênero. É bonito como vamos reinventando nossas significações, criando nosso próprio verbo que abrace nossos braços todos... Mas ainda sim, seremos muito mais do que nome, muito mais que o contorno das letras, que o contorno das membranas celulares, que os números em um registro de identidade, que as linhas dos nossos rostos. Ainda seremos muito mais do que tudo isso. O que somos não é passível de definição, não cabe neste texto.

A mulher trans e o homem trans são como se dizem que são, como o sentem e vibram. Essa coisa de gênero são vibraçoes, nem sempre exatas, que se sente e pronto. É pela liberdade de ser que vos falo. Pela liberdade de reinventar o nome, de desfaze-lo, recriá-lo.

Os corações trans batem independente das porcentagens das mortes, eles batem valentes diante da dureza e indelicadeza dos que não falam outra língua se não a limitada língua das definições emburrecidas. Corações fortes, batem alto e radiantes, vibrantes e continuarão batendo. Nós existimos, apesar de você
apesar de não poder
apesar de não caber.

A reinvenção do mundo e da vida.

Mais amor, por favor!







sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Miga, sua Loka, você não é louca! - A mania de ´´Histerilizar`` a Mulher

CUIDADO! Ela é uma boa pessoa mas anda meio descompensada, maluca, histérica, louca, infantil, impulsiva, nervosa, bipolar, psicótica, neurótica, dependente, fragilizada, ansiosa, paranóica, demente, agressiva, delirante, preguiçosa, é com certeza algum transtorno de família porque a mãe dela é igual, a irmã é igual, a amiga é igual, oh meu Deus minha mãe é igual, minha irmã é igual, todas as mulheres estão à beira de um ataque de nervos, sou um homem perdido nesse mar de loucura e insanidade feminina! Ligue já para 0800 999333444 para internação, CID f.60.31 CID 10F23.3.!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Deu pane no garoto! Ele está, senhoras e senhores, em um estado lamentável pois todas as mulheres a sua volta estão perdendo os parafusos. Ele teme ter que ceder um parafuso de sua própria cabeça, como fez Adão com sua costela a Eva, e então ter que pagar os pecados de uma mulher sem controle, influenciável até! E o que faria este pobre homem sem um parafuso em sua cabeça? Ficaria, assim como elas, louco, insano?  

O Brasil é um pais abarrotado de clinicas psiquiátricas, manicômios, instituições de tratamento psicológico que estão cada vez mais cheias e com um maior número de mulheres. De acordo com uma pesquisa do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo, mais de 50% das pessoas internadas são mulheres, sendo que a grande maioria tem problemas como depressão, depressão pós-parto, ansiedade ou transtornos alimentares. O que essas estatísticas nos apontam? Que sim, as mulheres estão enlouquecendo? Mais do que a resposta certa, é preciso fazer a pergunta certa: porque as mulheres estão ficando doentes?  

Com certeza a questão é mais complexa do que essa problematização, mas fato é que a alcunha de piradas e doidinhas nos perseguem há milênios. com a diferença que agora, em tese, não podem mais nos queimar na fogueira, nos torturar em equipamentos nos porões, nos culpar pelos incidentes do mundo nos acusando de bruxaria, não podem mais nos manter em cárcere privado sem falar com ninguém apenas servindo ao marido e parindo 1 criança por ano. Isso no plano ideal, não é? Porque ainda nos acusam de loucas, tiram nossa presidenta do poder estampando o rosto dela nas revistas chamando ela de descontrolada, ainda no meio de uma relação nos fazem crer que é devido a nossa falta de vigor mental que perdemos o controle nas discussões ou nos enfrentamentos das dificuldades da vida. É possível que nosso tempo não tenha mudado muito, mas apenas vestido outra carapuça mais amigável, nos socando goela à baixo pressões, problemas e culpas que correm em nossas veias e explodem nossa razão. Bum! E muitas são internadas e desenvolvem sérias doenças e outras ainda resistem dentro de suas casas com traumas e incapacidade de relacionar-se ou viver. 

Miga, sua loka, nós NÃO SOMOS LOUCAS. Nos ronda um bicho zombeteiro, como vespas à nossa orelha, que se chama culpa que nos faz crer que somos menos do que somos, que nos faz sentir incapaz, ou equivocada com nossa lucidez de como os homens são ou nos tratam. Culpa pelo nosso sexo, por nossos desejos, por nossa arte, nossos impulsos, nossas dores, nossas escolhas... MEA CULPA. Eu mesma, muitas vezes, quando percebo algum machismo doentio a minha volta me pergunto, antes de mais nada: mas espera, será que é mesmo ou eu estou exagerando ou paranoica? Não, não, ele me agrediu! Não, claro que não, eu estou exagerando! Não, ele disse para eu não escrever esse texto porque seria um exagero, porque é reflexo de como estou alucinando ou criando realidades paralelas na minha cabeça, porque feminismo em exagero é doença....etc, etc e tal!

Manas! Lucidez é cabeça em lança. Lança ponte aguda que fura essa rede de controle que tentam colocar sobre nós. Obviamente, nem todos os homens são esclarecidos sobre isso, alguns fazem sem perceber, mas nós devemos estar atentas para mecanismos de auto-sabotagem que nos acometem às vezes e fazem com que pensemos que estamos ´´ fora da órbita da razão``. A razão é toda nossa e estamos mais lúcidas do que nunca! 

Essa mania de ´´ histerilizar`` a gente me dá calafrios! Eu inventei esse termo que junta dois: histeria e estéril. Sinto que a histeria que esse mundo de homens nos causa nos deixa inférteis de nossas próprias ideias, nos castram de nossa própria natureza, tiram a verdade genuína que pulsa dentro de cada um, a sua forma. Nos querem, no fim do dia, apaziguadas, calmas nos lares, organizadas, belas e com as bochechas coradas. Mas não é possível ser assim, quando mora em nós uma inquietude porque nada está bem em nosso mundo hoje. Nós precisamos lutar e a luta, como me lembrou minha querida atriz e diretora Georgette Fadel se não for à força não vai. E nem vai se a força não for nossa. Brecht disse isso e é bem verdade. 

Não há como nos libertarmos verdadeiramente sem barulho ou sem incômodo. Não dá pra moça que mora na favela fazer o som dela sem bradar sua cor e sua desgraça à luz do seu sonho, não dá pra mãe de 5 filhos que mora na periferia mandar o marido abusivo e espancador para rua sem ela mesma fazer do seu cabo de vassoura uma baioneta e, à pauladas, o manter do portão para fora, não dá pra menina lésbica preservar-se de uma agressão ao ser forçada a namorar um rapaz sem sair de sua própria casa e peitar os machos quando preciso, não dá para uma mulher voltar do trabalho às 11 da noite pela rua escura sem levar um spray de pimenta ou uma proteção nos bolsos, não dá para a mulher estuprada pelo próprio parceiro fazer um aborto sem lutar ferozmente com as lágrimas sobre uma culpa que ela nega, não dá pra mais de 50 mil mulheres conquistarem seus direitos sem sair na rua, parar os carros e a rotina e ocupar as ruas com seus gritos e sua massa. Não dá para eu fazer minha arte sem minha dor, sem tua dor, sem agitar os ânimos. 

No último mês fui chamada de louca ou instável ou alcunhas do gênero mais de 18 vezes. Sim, eu contei, à título de pesquisa, não por paranoia. Dessas 18 parte foram por haters dos meus videos na internet, outra parte disfarçado de brincadeira por amigos e outras da boca de homens que confio e amo. Mais da metade das vezes eu acreditei e me condenei, outra parte eu acreditei mas me absolvi devido a intempéries da vida e hoje é a única vez que discordei e amei minha tal histeria: ela é a reação da tua ação, a resposta à opressão. 

Nossos parafusos estão no lugar e eles vão incomodar os que tentaram alterar nossas engrenagens. Girou as rodas da nossa [loco]motiva apitando sem parar. Avançamos furando as alcunhas, o medo, as camisas de força e as zonas de contenção. 

Ligadas estamos.
Atentas ficaremos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Não somos TEMERosas - Mulheres audiovisual na guerrilha

          No primeiro post do Geração M eu falei sobre essa geração de mulheres que incomodam, são as ´´ vulgares´´ e irreverentes e, obviamente, arrasam por isso. Por causa desse post entrei em contato com muitas mulheres que militam através do seu trabalho, da vida e um dos presentes que resultou deste blog foi saber de uma plataforma colaborativa que funciona como um acervo de obras audiovisuais de conteúdos produzidos por mulheres: o Mulheres Audiovisual (http://www.mulheresaudiovisual.com.br/).

         A Amanda Lopes, idealizadora da plataforma, cineasta e militante me fez pensar por uns bons dois dias com o pouco que conversamos. Eu, que estou imersa na escrita do meu primeiro longa, tive o coração apertado por algumas noites. Às vezes tenho impulsos honestos, sonhadores, audazes que ignoram a dureza dos dias, as limitações cotidianas, os enfrentamentos políticos e sociais que deixam nossa alma como carne moída de segunda pra vender no açougue à preço de banana. Esses impulsos são, na maioria das vezes, os responsáveis por certo traço de ´´ sonho``, de utopia, de paixão que me faz criar e acreditar que minha voz pode mover o mundo. É quase a frase de Lya Luft que li na plataforma: meu território é outro... faço parte da manada que corre para o impossível. E assim fico, correndo para o impossível: o mundo da liberdade de ser ouvida e respeitada por quem sou, pelo que crio, pela liberdade de me comunicar, de ir e vir. 

         É curiosa essa sensação que me acomete, de solidão, como se minha corrida fosse sobre um piso de gelo que me tira o calor, a energia e não saio do lugar: nosso brasil de hoje é machista, misógino, racista, direitoso e homofóbico e ainda aqueles que nos lideram, que não me representam, tentam nos controlar pelo medo, nós, burricas de carga, ignorantes e com lombo para trabalhar pra encher seus bolsos e suas panças douradas, aumentar sua linhagem com belas, delicadas e do lar. Pra que estou escrevendo meu filme, afinal? Que tipo de apoio um filme de uma mulher, que fala sobre opressão de mulheres, que questiona um mundo à beira de um colapso teria com dirigentes como os nossos? Quem assistiria meu filme? Quais Judas acabariam beijando minha face e me sabotando depois? 
  
          No meio de todas essas inquietações, que são partilhadas por milhares de artistas mulheres, encontrar a plataforma Mulheres Audiovisual foi um alívio! Ela acabou de nascer e conta com um grupo de mulheres que estão, como eu, insistindo na corrida, vencendo o gelo, fazendo ele derreter com o calor das nossas produções e adubando esse chão seco e apodrecido. Está aí, para todas nós. E elas estão trabalhando, criando este meio de divulgar as produções das outras mulheres, meios alternativos de distribuição de conteúdos, meio, também, de reflexão sobre todas que vieram antes de nós e as que estão aqui! E não é só cinema, tem espaço para música, artigos, produções científicas e outras expressões possíveis.

             A plataforma precisa ser divulgada, precisa de parceiras, precisa gerar mais e mais conexões! Ela é uma trincheira de resistência, muito bem articulada, com muito ''som e fúria" que pulsa desse desejo em comum. Mulheres, manas guerreiras minhas, nós estamos vivas. Essa morbidez que me assoma, essa onda de repressão, às vezes velada, que me tira o ar, precisa ceder espaço para essa energia que flui por nossos tecidos, que acelera nosso coração, que conecta nossas mentes, que nos põe em movimento em direção ao sonho e à luta. Vamos seguir criando e nos comunicando. Acessem a plataforma, entrem em contato, coloquem seus conteúdos disponíveis para serem vistos, discutidos, fomentados.

          Acabou de me passar pela cabeça a música do Geraldo Vandré, criada em um momento não muito diferente do nosso, que diz: ainda fazem da flor seu mais forte refrão, e acreditam nas flores vencendo o canhão. Que nos apontem os canhões, que nos intimidem com os seus falos e não falos, seus nãos, coerções, que continuem nos empurrando para a margem... Há edificações de nossas dores e nossos amores construindo uma cidade inteiramente nova, que pulsa pelo ´bom e pelo melhor do mundo`. Juntas, minhas queridas, avançamos juntas. Já sentem os tremores, as vozes? Eu as ouço todos os dias, acordo com elas: é nossa voz, alta e vibrante. Precisamos da sua voz! Fale, grite, mostre, afronte! O mundo é nosso, nós somos o mundo.