segunda-feira, 29 de outubro de 2018

LIBERDADE, EMPATIA : AS FLORES CONTRA O CANHÃO



"Darkness cannot drive out darkness; only light can do that. Hate cannot drive out hate; only love can do that"
''A escuridão não pode nos conduzir para fora dela, somente a luz pode fazer isso. Ódio não pode nos conduzir para fora dele, somente o amor pode fazer isso".

Martin Luther King, Jr.





         Minha escrita hoje será simples, mas nada simples são os pensamentos e sentimentos que se agitam dentro das minhas sinapses, dos meus nervos.  Geralmente, quando escrevo por aqui, exercito meu pensamento de composição com a palavra, de contar uma história e me deixar levar pelo conto, pelo causo. Alguns dizem que isso é um disfarce próprio dos atores de dizer, através da boca das personagens, algo que nem ele mesmo compreende sobre si. Mas hoje não terão personagens. 

         Pensei muito sobre o resultado das eleições de ontem, tenho lido os comentários, ouvi o discurso do Fernando Haddad e do Bolsonaro e a palavra que se precipita é LIBERDADE. ''Não há ninguém que explique e ninguém que não entenda", como diz o poema, mas mesmo assim veste formas ambíguas. 

          O discurso de ódio é uma erva daninha no que entendemos como democracia, é um ''monstro a roer as raízes", como disse Virginia Woolf. Acredito que houve uma distorção do sentido da palavra liberdade e do entendimento sobre responsabilidade social, democracia e civilidade. Não é possível para mim votar em um homem que disse as coisas que disse sobre homossexualidade (''o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro. [...] Eu não corro risco de ter filho gay porque dei uma boa educação"), sobre mulheres (''jamais iria estuprar você porque você não merece", ''dei uma fraquejada e veio mulher") , sobre negros (''eu não entraria num avião pilotado por um cotista nem seria operado por um médico cotista"/ ''o afro descendente mais leve lá pesava 7 arrobas'') , sobre ditadura e tortura (''e fazendo um trabalho que o regime militar não fez matando uns 30 mil"), impostos ("inclusive xará, conselho meu, eu sonego tudo que for possível") etc etc. Esses videos são públicos e de conhecimento de todos, link abaixo*  

            Muitos que votaram no Bolsonaro, conhecidos meus, não comentaram sobre essas postura dele mas sim alimentaram uma aversão ao PT, algum discurso cheio de revolta e ódio contra a política, ou defenderam uma ou outra causa que na visão deles os favoreceria caso Bolsonaro fosse eleito. 

    Obviamente, as pessoas que votaram no Bolsonaro são livres para votar nele e exerceram seu direito, mas também não é simples entender que a liberdade não significa "poder tudo". A liberdade de um, dentro de uma sociedade, implica no limite da liberdade do outro. Ser livre não significa que posso pegar uma arma e atirar em alguém porque sou livre para agir, ser livre não significa que posso ofender alguém porque eu quis, ser livre não significa ausência de limites. Isso é uma visão totalmente distorcida de liberdade que não considera a existência do outro, do desejo e da própria liberdade dos demais. A paz depende do poder da EMPATIA, que é a habilidade de se colocar no lugar do outro e de compreender que existir é uma dança harmoniosa das individualidades e das independências. Viver em sociedade e os relacionamentos no geral exige uma capacidade de conciliar as pulsões individuais com as do coletivo, significa ter sabedoria para entender as diferenças de pensamento, de respeitar que o outro tenha uma visão diferente da sua. 

      Tudo isso se torna paradoxal quando penso na eleição do Bolsonaro, porque eleger um homem que prega algum tipo de coerção, de violência e de postura anti democrática é, de certa forma, um exercício equivocado de liberdade, não considera o coletivo e não tem uma análise politico social que vá além do ''não elejo PT corrupto". Quem me dera fosse assim, tão simples.  Trágico pensar naqueles que elegeram Bolsonaro para fugir da violência e apoiaram um discurso muitas vezes cheio de ódio, ou que, lutando contra a violência e a corrupção, clamam "cala a boca desses petistas de merda" ou elegeram um homem que sonega os impostos.

Paradoxo...

    Tão simples e tão complexo! Como tudo que é genuinamente humano. Estaremos fadados a nos implodir com nossa contradição? Como diria Pagu: "Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre". 

      Nina Simone disse que liberdade é ausência de medo, e é uma bonita definição. Ausência de medo para todos, e não uma parcela. Eu tenho medo mas não serei paralisada por ele, usarei como força motriz para seguir com a arte e o poder que ela tem de aproximar os abismos das almas avessas e reversas. Quem sabe os sonhadores ainda conseguem mudar o mundo, como cantou Geraldo Vandré em um dos períodos mais obscuros e violentos da história do nosso país:

" Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão"....
*https://www.youtube.com/watch?v=n5Kfeiu4QAM&t=69s
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quinta-feira, 8 de março de 2018

A REVOLUÇÃO DA EVA - MANA, É A TUA HORA!



INFORME: Eva comeu a costela do Adão num banquete com a serpente, um primor. Ela cansou de levar a culpa pela libido masculina (e a sua própria). Resolveu, numa fenda espaço/temporal, mudar o curso da história.
Durante o banquete, Adão tinha uma maçã na boca.  




    Perdão pela profanação da história santa sobre o homem e a mulher e a aparente violência do canibalismo. Mas sou brasileira e artista, de certa forma filha da antropofagia da década de 20 e não consegui evitar a simbologia - e a ironia. Engolir a costela da qual nascemos, mastigar, amolecer a rigidez da prisão política, espiritual e social na qual estamos. Um tarefa milenar nada fácil! Colocar na boca dele a maçã símbolo do pecado que nos entortou a coluna e o tino!

    O sonho da igualdade de gênero ainda me ronda. Eu acredito que isso é possível, o respeito, a tolerância. Apesar  da aparente liberdade de expressão das redes sociais, elas instauram uma permissão ao ódio, uma violência estranha que sempre se precipita quando falamos de feminismo. Em resposta, o agredido se rebela violentamente contra seu agressor e o ciclo de vinganças não para. 

    Inevitável não pensar no peso das milhares de mulheres violentadas, subjugadas, humilhadas, castradas no mundo... O que carregam no coração? Amor e dor! O que fazemos com tanta dor? Não conheço nenhuma mulher que esteja inteira, intacta. Todas possuem cicatrizes, às vezes impossíveis de ignorar, como cavalos selvagens marcados pelo chicote. Mas já cavalgamos livres e indomáveis e  insistimos em transformar essas dores em mudança no mundo: luta por espaço e respeito. 

    Como falar para aqueles que não querem, não conseguem ou não sabem nos ouvir? O dia da mulher me faz questionar como se luta. O tempo inteiro precisamos lutar para lutar, e cada vez de forma mais efetiva e urgente pois as cabeças das Evas, Medusas, Medeias ainda rolam por aí, aos montes! 

      De acordo com a ONU, 7 em cada 10 mulheres já foram ou serão violentadas física, psicológica ou emocionalmente. E quando lutamos ferozes nas ruas com nossas tetas para fora em sinal de revolta, vira uma grande caça às bruxas e o discurso de igualdade é encoberto com uma capa de misandria. A velha tentativa de nos fazer afogar em nossas próprias ideias: ou é loucura ou extremismo.

       Eu amo os homens, mas odeio o que se tornaram e o que a sociedade repetidamente machista faz com meninos que se tornam homens embrutecidos e castradores, medrosos, com ego ferido e inflado como um balão no céu. Por causa deles não vemos o sol, mas ele brilha forte e uma hora o balão explode ou murcha. 

      E a culpa, queridas... A culpa recai sobre nós, madonas ou medonhas! Eles não se decidem, não sabem como se  portar diante do nosso empoderamento. Resta a nós saber por eles, controlar as rédeas dos lobinhos feridos desorientados que se acostumaram a organizar nossas emoções em estruturas familiares que nos deixem comportadas e doces.  

    Desejo neste dia da mulher sabedoria em nossa luta, o fim de violências e discriminações de qualquer natureza, desejo liberdade sexual, ideológica, sentimental! Desejo FORÇA para que possamos resistir às ignorâncias. E mesmo depois de tanto, ainda ser capaz de sorrir e amar, que a luta não nos deixe amputadas de nossa própria sensibilidade.