SENHORAS, SENHORES... Ao sentarem, por favor, separem-se: mulheres para a direita, homens à esquerda e os indecisos pairem sobre nossas cabeças, mas sem cair por favor! Pairem com graça sem desgraças ou incômodos.
Meu nome é ...
Meu nome,
meu
nome
é...
Dizem que quando se nomeia algo, dá-se alma. A alma vem com o conjunto ordenado de letras, como uma magia, um encanto. Chamaram-na de Leonardo, quando rompeu o ventre de sua mãe. Rompeu gritando rasgado como animal abatido, relutando como se não quisesse entrar para este mundo. Nasceu um bebê bem dotado, segundo o médico que, ironicamente, disse a todos da sala: é homem e não há como ter dúvidas! Risos contentes, satisfeitos. Sua mãe chamou assim, Leonardo, porque significa pessoa valente, como um leão, corajoso, viril.
Mas existe no mundo um negócio curioso - a contragosto dos céticos controladores - um tipo de energia elementar que faz crescer todas as flores, movimentar todos os astros. A mesma energia que nos concede desejo, passado, presente e futuro. Essa energia chamaram alma ou espirito, ou força vital, ou personalidade, ou muitos outros nomes. Curioso esse negócio de nomear as coisas, principalmente quando uma coisa tem muitos nomes. A árvore, caso se chamasse pliti, ainda seria o que é com outra designação? Ainda daria os mesmos frutos, com a mesma cor, tamanho, exuberância se tivesse outro agrupamento de letras que não a-r-v-o-r-e? Se sim, podemos inferir que o nome não modifica, concretamente, a coisa. Mas a coisa se modifica quando o nome significa algo para nós, ou seja, o nome se relaciona com nosso imaginário, com nossa história e nossa definição das coisas a partir dele. O nome importa para nós e nosso mundinho, não para a essência da coisa como é.
O mesmo acontece com Leonardo, que nunca se importou com as definições sobre si mesmo, no que diz respeito a sua natureza: por mais que os grandes ´´ elementos`` entre suas pernas o impusessem muitas classificações, eles negavam sua natureza íntima, mais que isso, feriam. Essa virilidade, esse gênero do macho, esses impulsos viris dos Leonardos não lhe cabiam. Tudo isso se fazia estranho, desconfortável, deslocado. Ele era ela, nasceu ela, sempre foi ela. De dentro, através da sua retina, dentro do mundo existente atras das paredes de suas células ele sentia-se uma menina, e depois uma mulher. Ela debatia-se, como átomos em ebulição agitados e desordenados, dentro de um corpo agressivo e opressor que a impedia de ser. É um estado constante de sufocamento, como se estivesse submersa sob a própria pele, a sombra de um nome e de um gênero oposto ao seu.
´´Como é difícil olhar-se no espelho`` - escrevera ela em seu diário. Gostava de chamar-se Maria porque significava... significava... Um som bom a seus ouvidos. Ela era Maria para si e os amigos íntimos. Maria que amava vestir vermelho, odiava pintar as unhas, gostava dos cabelos compridos e levemente anelados, gostava de Bon Jovi e de tocar piano, odiava seus músculos, sua estrutura óssea forte e robusta, machucava-lhe os pelos do rosto que rasgavam sua pele e, mais ainda, a alcunha que virou ser chamada de Leonardo, o enfrentamento dos pais, as pílulas anti-psicóticas que tomara de médicos - afinal é um ´´ distúrbio tratável esse de querer ser mulher não é doutor?``.
Ela não queria, era. Ela era uma mulher em um corpo de homem. E como saber isso? E isso pode? O que significa, afinal, a palavra mulher, ou o gênero mulher? É preciso ter um corpo como tal? Se a mulher não precisa agir de acordo com imposições sociais, se ela é soberana de si mesma mesmo quando foi subjugada a progenitora do lar, ou a salários mais baixos, ou a serva de seus esposos... a mulher não tem lutado para sua igualdade, sua liberdade dessa cultura machista, que não a obriga a nada, mas a liberta e lhe dá escolhas? E seria possível uma mulher, por alguma dança inexata de cromossomos, átomos e reações, estar presa a um corpo masculino?
Maria demorou 12 anos para conseguir fazer sua cirurgia total de mudança de sexo, apanhou 12 vezes na escola e duas na rua. Agora, sentindo-se no corpo ao qual pertence, ela poderia ser mais completa, mas nunca totalmente. E não pela sombra de não ter nascido mulher, porque por mais que sejam muitos os nomes que a classificam: mulher trans, trans, pessoa com distúrbio de identidade de gênero, etc etc e tal, ela era quem sempre foi: mulher. Ela nasceu e morreu assim.
Ontem, 30 de Janeiro de 2017, Maria teve o crânio estourado as 3:45 da manhã por um homem de 56 anos, alcoolizado e raivoso, militante em defesa da ´´ natureza`` e disposto a acabar com aberrações como ela. Maria é mais uma. Há homens transgêneros. Há, também, os que são gênero não binário, nem homem, nem mulher. Mais de 2% da população mundial não se identifica com o gênero com qual nasceu,sendo que 46% das mortes é causada por tiro, 24,2% por punhalada, 12,8% por paulada, 4,4% por estrangulamento, 2,8% por apedrejamento, 2% por desmembramento, 1.9% por asfixia, 1,5% por tortura, 1,4% por queimadura, 1,5% por atropelamento.
Números, porcentagens.
Quantos mais terão de morrer? Quantas definições vão nos colocar, que nos prenderão ao corpo com qual nascemos? Com quantos nomes teremos que andar pendurados em nossos pescoços que nos ofendem, que agradam ao imaginário social ideal, machista, misógino, homofóbico, transfóbico e racista? As palavras homem e mulher não só não dão mais conta de definir nosso espírito, como também foram desmembradas em mais de 33 tipos de gênero. É bonito como vamos reinventando nossas significações, criando nosso próprio verbo que abrace nossos braços todos... Mas ainda sim, seremos muito mais do que nome, muito mais que o contorno das letras, que o contorno das membranas celulares, que os números em um registro de identidade, que as linhas dos nossos rostos. Ainda seremos muito mais do que tudo isso. O que somos não é passível de definição, não cabe neste texto.
A mulher trans e o homem trans são como se dizem que são, como o sentem e vibram. Essa coisa de gênero são vibraçoes, nem sempre exatas, que se sente e pronto. É pela liberdade de ser que vos falo. Pela liberdade de reinventar o nome, de desfaze-lo, recriá-lo.
Os corações trans batem independente das porcentagens das mortes, eles batem valentes diante da dureza e indelicadeza dos que não falam outra língua se não a limitada língua das definições emburrecidas. Corações fortes, batem alto e radiantes, vibrantes e continuarão batendo. Nós existimos, apesar de você
apesar de não poder
apesar de não caber.
A reinvenção do mundo e da vida.
Mais amor, por favor!
Mas existe no mundo um negócio curioso - a contragosto dos céticos controladores - um tipo de energia elementar que faz crescer todas as flores, movimentar todos os astros. A mesma energia que nos concede desejo, passado, presente e futuro. Essa energia chamaram alma ou espirito, ou força vital, ou personalidade, ou muitos outros nomes. Curioso esse negócio de nomear as coisas, principalmente quando uma coisa tem muitos nomes. A árvore, caso se chamasse pliti, ainda seria o que é com outra designação? Ainda daria os mesmos frutos, com a mesma cor, tamanho, exuberância se tivesse outro agrupamento de letras que não a-r-v-o-r-e? Se sim, podemos inferir que o nome não modifica, concretamente, a coisa. Mas a coisa se modifica quando o nome significa algo para nós, ou seja, o nome se relaciona com nosso imaginário, com nossa história e nossa definição das coisas a partir dele. O nome importa para nós e nosso mundinho, não para a essência da coisa como é.
O mesmo acontece com Leonardo, que nunca se importou com as definições sobre si mesmo, no que diz respeito a sua natureza: por mais que os grandes ´´ elementos`` entre suas pernas o impusessem muitas classificações, eles negavam sua natureza íntima, mais que isso, feriam. Essa virilidade, esse gênero do macho, esses impulsos viris dos Leonardos não lhe cabiam. Tudo isso se fazia estranho, desconfortável, deslocado. Ele era ela, nasceu ela, sempre foi ela. De dentro, através da sua retina, dentro do mundo existente atras das paredes de suas células ele sentia-se uma menina, e depois uma mulher. Ela debatia-se, como átomos em ebulição agitados e desordenados, dentro de um corpo agressivo e opressor que a impedia de ser. É um estado constante de sufocamento, como se estivesse submersa sob a própria pele, a sombra de um nome e de um gênero oposto ao seu.
´´Como é difícil olhar-se no espelho`` - escrevera ela em seu diário. Gostava de chamar-se Maria porque significava... significava... Um som bom a seus ouvidos. Ela era Maria para si e os amigos íntimos. Maria que amava vestir vermelho, odiava pintar as unhas, gostava dos cabelos compridos e levemente anelados, gostava de Bon Jovi e de tocar piano, odiava seus músculos, sua estrutura óssea forte e robusta, machucava-lhe os pelos do rosto que rasgavam sua pele e, mais ainda, a alcunha que virou ser chamada de Leonardo, o enfrentamento dos pais, as pílulas anti-psicóticas que tomara de médicos - afinal é um ´´ distúrbio tratável esse de querer ser mulher não é doutor?``.
Ela não queria, era. Ela era uma mulher em um corpo de homem. E como saber isso? E isso pode? O que significa, afinal, a palavra mulher, ou o gênero mulher? É preciso ter um corpo como tal? Se a mulher não precisa agir de acordo com imposições sociais, se ela é soberana de si mesma mesmo quando foi subjugada a progenitora do lar, ou a salários mais baixos, ou a serva de seus esposos... a mulher não tem lutado para sua igualdade, sua liberdade dessa cultura machista, que não a obriga a nada, mas a liberta e lhe dá escolhas? E seria possível uma mulher, por alguma dança inexata de cromossomos, átomos e reações, estar presa a um corpo masculino?
Maria demorou 12 anos para conseguir fazer sua cirurgia total de mudança de sexo, apanhou 12 vezes na escola e duas na rua. Agora, sentindo-se no corpo ao qual pertence, ela poderia ser mais completa, mas nunca totalmente. E não pela sombra de não ter nascido mulher, porque por mais que sejam muitos os nomes que a classificam: mulher trans, trans, pessoa com distúrbio de identidade de gênero, etc etc e tal, ela era quem sempre foi: mulher. Ela nasceu e morreu assim.
Ontem, 30 de Janeiro de 2017, Maria teve o crânio estourado as 3:45 da manhã por um homem de 56 anos, alcoolizado e raivoso, militante em defesa da ´´ natureza`` e disposto a acabar com aberrações como ela. Maria é mais uma. Há homens transgêneros. Há, também, os que são gênero não binário, nem homem, nem mulher. Mais de 2% da população mundial não se identifica com o gênero com qual nasceu,sendo que 46% das mortes é causada por tiro, 24,2% por punhalada, 12,8% por paulada, 4,4% por estrangulamento, 2,8% por apedrejamento, 2% por desmembramento, 1.9% por asfixia, 1,5% por tortura, 1,4% por queimadura, 1,5% por atropelamento.
Números, porcentagens.
Quantos mais terão de morrer? Quantas definições vão nos colocar, que nos prenderão ao corpo com qual nascemos? Com quantos nomes teremos que andar pendurados em nossos pescoços que nos ofendem, que agradam ao imaginário social ideal, machista, misógino, homofóbico, transfóbico e racista? As palavras homem e mulher não só não dão mais conta de definir nosso espírito, como também foram desmembradas em mais de 33 tipos de gênero. É bonito como vamos reinventando nossas significações, criando nosso próprio verbo que abrace nossos braços todos... Mas ainda sim, seremos muito mais do que nome, muito mais que o contorno das letras, que o contorno das membranas celulares, que os números em um registro de identidade, que as linhas dos nossos rostos. Ainda seremos muito mais do que tudo isso. O que somos não é passível de definição, não cabe neste texto.
A mulher trans e o homem trans são como se dizem que são, como o sentem e vibram. Essa coisa de gênero são vibraçoes, nem sempre exatas, que se sente e pronto. É pela liberdade de ser que vos falo. Pela liberdade de reinventar o nome, de desfaze-lo, recriá-lo.
Os corações trans batem independente das porcentagens das mortes, eles batem valentes diante da dureza e indelicadeza dos que não falam outra língua se não a limitada língua das definições emburrecidas. Corações fortes, batem alto e radiantes, vibrantes e continuarão batendo. Nós existimos, apesar de você
apesar de não poder
apesar de não caber.
A reinvenção do mundo e da vida.
Mais amor, por favor!

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